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segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Capítulo 5: Uma Interpretação Dos Dados

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Mais tarde, quando se acalmou, Elena Morales decidiu não revelar o ataque dos lagartos. Apesar da cena horrível que presenciara, começou a temer que a criticassem por ter deixado o neném sozinho. Disse à mãe que o bebê morrera sufocado e registrou a morte nos formulários enviados a San José como SIMS — Síndrome Infantil da Morte Súbita. Tratava-se de uma síndrome de morte inexplicável em crianças recém-nascidas. Nada de especial. O relatório passou despercebido.
O laboratório da universidade de San José analisou a amostra de saliva retirada do braço de Tina Bowman, descobrindo uma série de fatos notáveis. Havia, como se esperava, um índice alto de serotonina. Mas entre as proteínas salivares foi identificada uma verdadeira monstruosidade: com massa molecular de um milhão e novecentos e oitenta mil, tratava-se de uma das maiores proteínas conhecidas. A atividade biológica ainda estava sendo estudada, mas aparentemente a proteína era um veneno neurotóxico similar ao veneno de cobra, embora mais primitivo em sua estrutura.
O laboratório também detectou quantidades ínfimas de hidrolase gama-amino metionina. Como esta enzima caracterizava experimentos de engenharia genética, não sendo encontrada em animais silvestres, os técnicos presumiram que se tratava de contaminação ocorrida no laboratório, e não se referiram a ela quando contataram o dr. Cruz, o médico de Puntarenas responsável pela remessa.
O fragmento de lagarto permaneceu no freezer da Universidade Colúmbia, esperando pela volta do dr. Simpson, o que ainda demoraria um mês. E as coisas teriam continuado neste pé, se uma técnica chamada Alice Levin não tivesse visto o desenho feito por Tina Bowman ao entrar no laboratório e perguntado:
—  Ah, quem desenhou este dinossauro?
—  O quê? — indagou Richard Stone, virando-se lentamente.
—  O dinossauro. Quem desenhou? Meu filho faz isso o tempo inteiro.
—  Isso é um lagarto — Stone disse. — Da Costa Rica. Uma menina de lá o desenhou.
—  Não. — Alice abanou a cabeça. — Olhe direito. Está claro. Cabeça grande, pescoço comprido, em pé nas patas traseiras, cauda grossa. É um dinossauro.
—  Não poderia ser. Tem só trinta centímetros.
—  E daí? Havia dinossauros pequenos também — Alice insistiu. — Acredite em mim, eu conheço. Tenho dois filhos, sou especialista nisso. Os menores dinossauros não chegavam a trinta centímetros. Tenissauros ou algo assim. Sei lá. Os nomes são impossíveis. Ninguém consegue guardar tais nomes depois dos dez anos.
—  Acho que não está entendendo — insistiu o dr. Stone. — Trata-se de um animal contemporâneo. O desenho chegou junto com um fragmento do espécime. Está no freezer agora. — Stone foi buscá-lo e despejou o conteúdo do saco sobre a mesa.
Alice Levin olhou o pedaço de perna e cauda congeladas e deu de ombros. Não o tocou.
—  Sei lá, para mim parece ser de um dinossauro. Stone balançou a cabeça.
—  Impossível.
—  Por quê? — Alice Levin perguntou. — Pode ser um remanescente, um sobrevivente, como dizem.
Stone continuou abanando a cabeça. Alice estava mal informada; não passava de uma técnica com excesso de imaginação que trabalhava no laboratório de bacteriologia, no final do corredor. Stone lembrou-se da época em que ela afirmara estar sendo seguida por um dos serventes...
—  Sabe — Alice prosseguiu —, se isso for mesmo um dinossauro, Richard, temos uma grande descoberta nas mãos.
—  Não é um dinossauro.
—  Alguém já verificou isso?
—  Não — Stone admitiu.
—  Bem, então levem a amostra ao museu de História Natural, por exemplo. É o que deveriam fazer.
—  Seria constrangedor.
—  Quer que eu o leve?
—  Não — respondeu Richard Stone. — Não quero.
—  Mas não vai fazer nada?
—  Nada mesmo. — Ele devolveu o saco ao freezer, batendo a porta. — Não se trata de um dinossauro e sim de um lagarto. E seja lá o que for, pode esperar pela volta do dr. Simpson de Bornéu! Ele vai identificá-lo. Chega deste assunto, Alice. O lagarto não será levado a lugar nenhum.

sexta-feira, 4 de março de 2011

Capítulo 4: Nova York

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O dr. Richard Stone, diretor do Laboratório de Doenças Tropicais do Centro Médico da Universidade Colúmbia, costumava ressaltar que o nome sugeria um estabelecimento muito maior do que o existente. No início do século 20, quando o laboratório ocupava o quarto andar inteiro do prédio da pesquisa biomédica, equipes trabalhavam para debelar surtos de febre amarela, malária e cólera. Mas os sucessos da medicina — e a criação de laboratórios de pesquisa em São Paulo e Nairobi — diminuíram bastante a importância do centro norte-americano. Atualmente muito reduzido, empregava apenas dois técnicos em período integral, ocupados prioritariamente em diagnosticar moléstias contraídas por nova-iorquinos durante viagens ao exterior. A tranqüila rotina do laboratório não estava preparada para o material que chegou naquela manhã.


— Olhe só que interessante — comentou a técnica no Laboratório de Doenças Tropicais ao ler o rótulo da amostra. — Fragmento parcialmente mastigado de lagarto não identificado da Costa Rica. — Ela torceu o nariz. — Isso é para o senhor, doutor Stone.


Richard Stone atravessou o laboratório para inspecionar o material.


— Seria esta a amostra do laboratório de Ed Simpson?


— Sim — ela respondeu. — Mas não sei por que mandaram este lagarto logo para nós.


— A secretária dele ligou — Stone explicou. — Simpson está em viagem de pesquisa, foi passar o verão em Bornéu. Como existe um caso de doença relacionado ao lagarto, ela pediu ao nosso laboratório para dar uma olhada nele. Vamos ver o que descobrimos.


O cilindro de plástico era do tamanho de uma embalagem de dois litros de leite. Possuía fechos metálicos e tampa de rosca. O rótulo dizia: "Embalagem internacional para espécime biológico". Estava cheio de adesivos com avisos em quatro idiomas. Os avisos destinavam-se a impedir a abertura do cilindro pelos desconfiados funcionários da alfândega.



Pelo jeito os avisos tinham funcionado. Ao aproximar a luminária, Richard Stone percebeu que os lacres permaneciam intactos. Acionou os manipuladores a ar, colocando as luvas plásticas e a máscara no rosto. Afinal de contas, o laboratório identificara recentemente espécimes contaminados com febre eqüina da Venezuela, encefalite B japonesa, vírus da floresta de Kyanasur, vírus Langat e Mayaro. Ele dasatarraxou a tampa.


A névoa branca escapou do recipiente, com o chiado típico dos gases. O cilindro esfriou, congelando. Dentro havia um saco plástico tipo zip, contendo uma coisa esverdeada. Stone abriu um pano cirúrgico sobre a mesa e esvaziou o conteúdo do saco. Um pedaço de perna congelada bateu na mesa com um barulho seco.


— Puxa — disse a técnica. — Parece que foi comido.


— Sim, parece — concordou Stone. — O que esperam de nós? A técnica consultou os documentos anexos.


— O lagarto anda mordendo crianças da região. Eles querem a identificação da espécie, e se preocupam com doenças transmitidas pela mordida. — Ela mostrou um desenho infantil, retratando o lagarto, assinado por "Tina". — Uma delas fez um desenho do lagarto.


Stone olhou de relance para o esboço.


— Obviamente não podemos identificar a espécie. Mas podemos checar as doenças facilmente, se conseguirmos um pouco de sangue do fragmento. Como se chama o animal?


— Basiliscus amoratus com anomalia genética de três dedos — ela respondeu, lendo o documento anexo.


— Certo — Stone assentiu. — Vamos trabalhar. Enquanto espera o descongelamento, faça um raio X e tire fotos Polaroid para o arquivo. Assim que obtiver um pouco de sangue, comece com os testes de anticorpos, para ver no que dá. Avise se tiver algum problema.






Antes do almoço, o laboratório encontrou a resposta: o sangue do lagarto aparentemente não reagia aos antígenos bacterianos ou virais. Realizaram testes de toxidez, também, encontrando apenas uma resposta positiva: o sangue reagia medianamente ao veneno da cobra indiana naja real. Mas essas reações cruzadas eram comuns entre as espécies de répteis, e o dr. Stone não achou que valia a pena incluir isso no fax enviado ao dr. Martin Guitierrez naquela mesma tarde. Eles nem sequer pensaram em identificar o lagarto: isso deveria esperar pela volta do dr. Simpson, que só retornaria dali a várias semanas, e a secretária pediu ao laboratório que guardasse o fragmento do animal nesse meio tempo. O dr. Stone o devolveu ao saco plástico e o guardou no freezer.






Martin Guitierrez leu o fax do Laboratório de Doenças Tropicais do Centro Médico Colúmbia. Era curto:


ASSUNTO: Basiliscus amoratus com anomalia genética (enviado pelo departamento do dr. Simpson)


MATERIAIS: Segmento posterior (?), animal parcialmente devorado


PROCEDIMENTOS REALIZADOS: Raio X, microscópio, RTX imunológico para doenças virais, parasitológicas e bacterianas.


CONCLUSÕES: Não há evidências de doenças contagiosas transmissíveis a seres humanos nesta amostra de Basiliscus amoratus.


Richard A. Stone, M. D.,


Diretor






Guitierrez tirou duas conclusões do memorando. Primeiro, que sua identificação do lagarto como um basilisco fora confirmada pelos cientistas da Universidade Colúmbia. Segundo, que a ausência de doenças transmissíveis significava que as mordidas esporádicas de lagartos não representavam uma ameaça séria para a saúde pública na Costa Rica. Pelo contrário, sua suposição inicial fora confirmada: uma espécie de lagarto trocara a selva por um novo habitat e entrara em contato com as populações das vilas. Imaginou que dentro de algumas semanas o lagarto se adaptaria e os casos de ataque cessariam.


A chuva tropical caía pesadamente, martelando o teto da clínica em Bahia Anasco. Era quase meia-noite. A luz fora cortada durante a tempestade, e a parteira Elena Morales trabalhava à luz de uma lanterna, quando ouviu um silvo, quase um guincho. Pensando tratar-se de um rato, ela imediatamente colocou uma compressa na testa da mãe e foi até o quarto vizinho para olhar o recém-nascido. Quando sua mão tocou a maçaneta, ouviu o guincho novamente e relaxou. Evidentemente tratava-se apenas de um pássaro, escondido no parapeito da janela para se proteger da chuva. Os costarriquenhos acreditavam que um pássaro visitando um bebê trazia boa sorte.


Mesmo assim Elena abriu a porta. O recém-nascido jazia em um moisés de vime, enrolado em uma manta leve, com o rosto exposto. Em volta do moisés, três lagartos verde-escuro estavam debruçados, como gárgulas. Quando viram Elena, ergueram as cabeças e a olharam curiosos, mas não fugiram. A lanterna na mão de Elena iluminou o sangue que pingava de suas bocas. Assobiando suavemente, um dos répteis abaixou a cabeça e, com um movimento rápido, arrancou um naco de carne do bebê.


Elena correu, gritando, e os lagartos desapareceram na escuridão. Bem antes de chegar ao moisés, ela viu o que acontecera com o rosto do bebê e percebeu que a criança estava morta. Os lagartos espalharam-se na noite chuvosa, guinchando e sibilando, deixando para trás apenas as pegadas tripartidas, semelhantes às dos pássaros.


PROXIMO CAPÍTULO: Uma Interpretação de Dados
Fique Atento!

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Capítulo 3: A Praia

Martin Guitierrez sentou-se na areia e observou o sol que se punha, refletindo seus raios na água da baía e tingindo de dourado a copa das palmeiras. Depois, pensativo, voltou o olhar para o man-guezal, na praia de Cabo Blanco. Encontrava-se bem perto do local onde a menina americana fora mordida, há dois dias.


Embora fosse verdade o que contara aos Bowman sobre mordidas de lagartos, Guitierrez nunca ouvira falar de alguém que tivesse sido atacado por um lagarto basilisco. E seguramente jamais soubera de um caso de hospitalização. Além disso, a marca deixada no braço de Tina parecia ser um pouco grande demais para um basilisco. Ao voltar para a estação de pesquisa em Carara, consultara a pequena biblioteca existente ali, mas não encontrara referências a mordidas de basilisco. Checara em seguida o International BioSciences Service, um banco de dados computadorizado nos Estados Unidos. Também lá nada havia sobre mordidas de basilisco, nem internamentos por ataques de lagartos.


Em seguida tinha ligado para o médico responsável por Amaloya, que confirmara a história da criança atacada no berço. Um bebê de nove dias, quando dormia, fora mordido por um animal que a avó — a única pessoa que realmente o viu — afirmou ser um lagarto. Pouco depois o pé do recém-nascido inchou, e ele quase morreu. A avó descreveu o lagarto, que seria verde, com listras marrons. Mordera a criança várias vezes, antes que a mãe o afugentasse.


— Muito estranho — Guitierrez falou.


— Nada disso, foi igual aos outros casos — retrucou o médico, contando vários incidentes similares. Uma criança em Vásquez, a vila seguinte na costa, fora mordida enquanto dormia. E outra em Puerta Sotrero. Todos os casos aconteceram nos últimos dois meses. E todos envolviam bebês e crianças pequenas que dormiam.


Um padrão tão novo e inusitado levara Guitierrez a suspeitar da presença de uma espécie de lagarto até então desconhecida. Tal fato não o surpreenderia, na Costa Rica. Com apenas cento e vinte quilômetros de largura em seu ponto mais estreito, o país era menor do quaj o Estado do Maine. Contudo, dentro daquele espaço limitado, abrigava uma notável plêiade de habitats biológicos: costas, tanto do lado Atlântico quanto Pacífico; quatro cadeias montanhosas distintas, incluindo picos de quatro mil metros de altura e vulcões ativos; florestas tropicais, florestas cobertas por nuvens, zonas temperadas, pântanos e desertos áridos. Tal variedade ecológica permitia uma diversidade espantosa de espécies animais e vegetais. A Costa Rica tinha três vezes mais espécies de pássaros do que toda a América do Norte. Mais de mil espécies de orquídeas. Mais de cinco mil de insetos.


Novas espécies eram descobertas a todo momento, em um ritmo que aumentara nos anos recentes, por um triste motivo. A Costa Rica vinha sendo desmatada, e quando as espécies existentes na floresta perdiam seus habitats, mudavam-se para outros locais, alterando muitas vezes o comportamento.


Assim sendo, uma nova espécie era perfeitamente possível. Mas, junto com a excitação da descoberta, vinha a possibilidade preocupante de novas doenças. Os lagartos eram portadores de viroses, e várias delas poderiam ser transmitidas a seres humanos. A mais séria era a encefalite central sáuria, ou ECS, que provocava uma espécie de doença do sono em pessoas e cavalos. Considerava importante localizar esse novo lagarto, no mínimo para verificar as doenças que poderia transmitir.


Sentado na praia, acompanhando o pôr-do-sol, Guitierrez suspirou. Talvez Tina Bowman tivesse visto um novo animal, talvez não. Ele com certeza não o vira. No início da manhã apanhara a pistola de pressão, carregada com dardos de ligamina, e seguira para a praia cheio de esperanças. Mas o dia fora perdido. Logo precisaria pegar o carro e voltar. Não queria encarar aquela estrada no escuro.


Levantou-se e caminhou pela praia. Um pouco adiante, viu a silhueta escura de um macaco, movendo-se na beira do manguezal. Guitierrez afastou-se, aproximando-se do mar. Se havia um macaco ali, haveria outros nas árvores, e eles costumavam urinar nos intrometidos.


Mas aquele macaco parecia estar sozinho, e caminhava devagar, parando a todo momento, agachado. O macaco levava algo na boca. Conforme Guitierrez aproximou-se, percebeu que comia um lagarto. A cauda e as patas traseiras pendiam na boca do animal. Mesmo a distância, Guitierrez viu as listras marrons no corpo esverdeado.


Guitierrez abaixou-se e apontou a pistola. O macaco, acostumado a viver protegido na reserva, encarou-o curioso. Não fugiu, nem mesmo quando o primeiro dardo passou por ele sem acertá-lo. Quando o segundo cravou-se na coxa, o macaco gritou de raiva e surpresa, largando os restos de sua refeição ao fugir para a mata.


Guitierrez levantou-se e chegou mais perto. Não se preocupava com o macaco: a dose de tranqüilizante era pequena, só provocaria alguns minutos de tontura e mais nada. Já começava a pensar no que fazer com sua descoberta. Ele mesmo redigiria o relatório preliminar, mas os restos do animal teriam de ser enviados aos Estados Unidos, para uma identificação final positiva, claro. Para quem o mandaria? O especialista mais conhecido era Edward H. Simpson, professor emérito de zoologia na Universidade Colúmbia, em Nova York. Um senhor elegante, com cabelos brancos penteados para trás, Simpson era a maior autoridade mundial em taxonomia de lagartos. Provavelmente, Martin pensou, mandaria aquele exemplar para o dr. Simpson.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Capítulo 2 - Puntarenas

— A menina já está se sentindo bem melhor agora, creio — disse o dr. Cruz, baixando o plástico da tenda de oxigênio em torno de Tina, que repousava. Mike Bowman sentou-se ao lado da cama, próximo à filha. Concluiu que o dr. Cruz era muito capaz. Falava inglês excelente, graças ao treinamento em centros médicos de Londres e Baltimore. Irradiava competência, e a Clínica Santa Maria, o moderno hospital de Puntarenas, era imaculado e eficiente.



Mesmo assim, Mike Bowman se sentia muito nervoso. Não havia como negar o fato de que sua única filha estava seriamente doente, e eles muito longe de casa.


Quando encontrara Tina, ela chorava histericamente. O braço esquerdo coberto de sangue mostrava uma série de pequenas dentadas, cada uma delas do tamanho de um polegar. E havia trechos cobertos por uma espuma pegajosa, como saliva.


Ele a tirara da praia. Seu braço começara a inchar e a ficar vermelho em seguida. Mike demoraria muito para se esquecer da viagem frenética de volta para a civilização, o Land Rover com tração nas quatro rodas derrapando e deslizando na estrada enlameada pelas montanhas, enquanto a filha gritava de dor e pânico, o braço cada vez mais inchado e vermelho. Muito antes de chegarem à entrada do parque o pescoço de Tina começara a inchar também e a menina passara a respirar com dificuldade.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Capítulo 1 - Quase um paraíso

Primeira interação

"Nos primeiros esboços da curva fractal, poucas indicações da estrutura matemática subjacente podem ser verificadas."                                                            

IAN MALCOLM

   
Mike Bowman assobiava animado enquanto conduzia o Land Rover pela Reserva Biológica de Cabo Blanco, no lado oeste da Costa Rica. Naquela manhã magnífica de julho, a estrada à frente era espetacular: acompanhava a beirada de um penhasco, com vistas para a mata e o azul do Pacífico. De acordo com os guias de turismo, Cabo Blanco era quase um paraíso selvagem, intocado. Ao visitá-lo Bowman sentia que suas férias retomavam o curso normal.



Bowman, trinta e seis anos, trabalhava como incorporador imobiliário em Dallas, e resolvera passar duas semanas de férias na Costa Rica, com a mulher e a filha. Na verdade a viagem fora idéia da esposa; Ellen ficara semanas a fio insistindo na beleza dos parques nacionais da Costa Rica, e no quanto Tina aproveitaria os passeios. Depois ,que chegaram ao país, ele descobrira que Ellen tinha consulta marcada com um cirurgião plástico em San José. Então ouvira falar, pela primeira vez, nas cirurgias plásticas baratas e excelentes disponíveis na Costa Rica, e nas clínicas particulares de luxo de San José.


Claro, saiu uma briga feia. Mike achou que ela mentira, e tinha razão. E recusou-se a aceitar a história da cirurgia plástica. De qualquer modo era uma idéia ridícula, Ellen, uma linda mulher, tinha apenas trinta anos. Puxa vida, ela fora a rainha da turma em Rice, há menos de dez anos. Mas Ellen mostrava fortes tendências para a insegurança e a preocupação excessiva. E nos últimos anos, pelo jeito, preocupara-se excessivamente com a perda da beleza.


Com isso e com quase tudo.


O Land Rover caiu num buraco, espalhando lama. Sentada ao lado dele, Ellen indagou:
— Mike, tem certeza de que pegamos a estrada certa? Não vemos ninguém há horas.


— Passamos por um carro há quinze minutos. Lembra-se, aquele azul?


— Seguindo para o outro lado...


— Amor, você pediu para ir a uma praia deserta. O que esperava? Ellen balançou a cabeça, insegura.


— Tomara que tenha razão.


— Isso, papai, tomara mesmo — Christina repetiu no banco traseiro. Tinha oito anos.


— Confiem em mim, estamos no caminho certo. — Ele dirigiu em silêncio por algum tempo. — Não é maravilhoso? Olhem que vista. Linda.


— Serve — Tina falou.


Ellen apanhou o estojo de maquiagem e o abriu, olhando-se no pequeno espelho, massageando a área sob os olhos. Depois, suspirando, fechou o estojo.


A estrada começava a descer, e Mike Bowman concentrou-se no volante. Repentinamente uma pequena sombra escura cruzou veloz o caminho, e Tina gritou:


— Olhem lá! Olhem lá! — Mas a sombra sumira na mata.


— O que era? — Ellen perguntou. — Um sagüi?


— Talvez fosse um sagüi — Bowman admitiu.


— Posso marcar? — Tina perguntou, pegando o lápis. Ela estava fazendo uma lista de todos os animais avistados, como trabalho escolar.


— Não sei — Mike hesitou.


Tina consultou as ilustrações em seu livro.


— Não creio que tenha sido um sagüi. Acho que era só mais um macaco comum. — Já tinham visto muitos macacos durante a viagem. — Puxa vida — ela continuou animada. — De acordo com o livro, "as praias de Cabo Blanco apresentam grande variedade de animais silvestres, inclusive macacos de cara branca, preguiças e quatis". Acha que vamos ver um bicho-preguiça, papai?


— Aposto que sim.


— Sério mesmo?


— É só se olhar no espelho.


— Não achei graça nenhuma, pai.


A ladeira varava a floresta, dando na beira do mar.


Mike Bowman sentiu-se um herói ao chegar finalmente à praia, três quilômetros de areia branca em crescente, completamente deserta. Estacionando o Land Rover à sombra das palmeiras que acompanhavam a orla, apanhou a cesta de piquenique. Ellen vestiu o maio, reclamando:


— Honestamente, não sei o que vou fazer para me livrar desta gordura toda.


— Você está ótima, doçura. — Na verdade, ele a achava muito magra, mas aprendera a não falar nisso.


Tina já corria pela areia da praia.


— Não se esqueça de passar o protetor solar! — Ellen gritou.


— Mais tarde — Tina retrucou por cima do ombro. — Primeiro vou procurar uma preguiça.


Ellen Bowman examinou a praia e a mata fechada.


— Acha que não tem perigo?


— Amor, não tem ninguém nem a quilômetros daqui.


— E as cobras?


— Pelo amor de Deus! — Mike exclamou. — Não há cobras na praia.


— Mas e se tiver...


— Doçura, as cobras têm sangue frio. São répteis. Não podem controlar a temperatura do corpo. A areia está pelando, a uns trinta e cinco graus. Se uma cobra se atrever a passar ali, vai morrer cozida, juro. Não há cobras na praia. — Ele observou enquanto a filha corria, um pontinho escuro na areia alva. — Deixe-a ir. Está se divertindo.


E passou o braço em torno da cintura da mulher.


Tina correu até se cansar e depois deitou-se na areia, rolando até a beira do mar. A água estava quente, quase sem ondas. Sentou-se por um momento, para recuperar o fôlego, olhando para os pais e o jipe, calculando o quanto se distanciara.


A mãe acenou, pedindo que voltasse. Tina fez um gesto, fingindo não entender. Não queria passar protetor solar. E não queria voltar e ouvir a mãe reclamar do excesso de peso. Queria ficar ali mesmo, e quem sabe achar uma preguiça.


Tina vira uma preguiça há dois dias, no zoológico de San José. O bicho parecia um personagem dos Muppets, inofensivo. De qualquer modo, não conseguia se mover com rapidez. Ela poderia facilmente deixá-la para trás na corrida.


Quando a mãe começou a gritar, Tina resolveu ir para a sombra, afastando-se do mar, procurando abrigo sob as palmeiras. Naquela parte da praia as palmeiras erguiam-se sobre um emaranhado de raízes do mangue, que impediam a exploração da área. Tina sentou-se na areia e chutou as raízes do manguezal. Encontrou várias pegadas de pássaros na areia. A Costa Rica era um país famoso pelos pássaros. Os livros diziam que havia ali o triplo de aves em comparação com os Estados Unidos e Canadá juntos.


Na areia, viu três marcas da pegada de algum pássaro tão pequenas, tão leves, que mal podiam ser identificadas. Havia outras pegadas maiores, fundas. Tina olhava distraidamente para as marcas quando ouviu um bicho assobiar e percebeu um movimento entre as raízes emaranhadas do manguezal.


As preguiças assobiavam? Tina duvidava, mas não tinha certeza. Talvez fosse uma ave marinha. Ela esperou imóvel, em silêncio, atenta para o ruído farfalhante do movimento, que se repetiu. Finalmente identificou a origem do som. A poucos metros, um lagarto saiu do meio das raízes e olhou para ela.


Tina prendeu a respiração. Um novo animal para sua lista! O lagarto ergueu-se nas patas traseiras, balançando a cauda grossa, e a encarou. Em pé, como estava, atingia trinta centímetros de altura, verde-escuro, com listras marrons nas costas. As patas dianteiras minúsculas terminavam em pequenos dedos que se mexiam nervosos no ar. O lagarto empinou a cabeça ao olhá-la.


Era uma gracinha, Tina pensou. Parecia uma salamandra grande. Ela ergueu a mão e também mexeu os dedos.


O lagarto não se amedrontou. Veio em sua direção, andando sobre as patas traseiras. Pouco maior que uma galinha, movia a cabeça como se fosse uma, ao se locomover. Tina imaginou que daria um ótimo bichinho de estimação.


Ela notou que o lagarto deixava três marcas na areia, iguais a pegadas de aves. Ele acercou-se de Tina, que permaneceu imóvel, para não assustar o animalzinho. Ficou espantada com a aproximação, mas depois se lembrou de que se achava em um parque nacional. Os animais do parque sabiam que estavam protegidos. Provavelmente o lagarto era manso. Talvez estivesse querendo comida. Infelizmente não trouxera nada para lhe dar. Lentamente, Tina esticou a mão espalmada, para mostrar que não tinha comida. O lagarto parou, empinou a cabeça e sibilou.


— Que pena! — Tina disse. — Não tenho nada agora.


De repente, sem aviso, o lagarto pulou em sua palma aberta. Tina sentiu os pequenos dedos perfurando a pele da mão e o peso surpreendente do animal pressionando seu braço para baixo.


Em seguida o lagarto trepou pelo braço, buscando seu rosto.


— Eu preferiria que ela ficasse à vista — Ellen Bowman disse, semicerrando os olhos por causa do sol. — Só isso. Poder vê-la.


— Aposto que está ótima — Mike retrucou, verificando a cesta de piquenique preparada no hotel. O frango assado parecia pouco apetitoso, e havia também uma espécie de torta de carne. Ellen jamais comeria aquilo.


— Acha que ela se afastou da praia? — Ellen insistiu.


— Não, doçura, não acho.


— Eu me sinto tão isolada aqui.


— Pensei que era isso que pretendia.


— E era.


— Então qual é o problema?


— Gostaria que ela ficasse à vista, só isso — Ellen repetiu. Nesse momento, trazida pelo vento, ouviram a voz da filha na praia.


Ela estava gritando.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Prólogo: "A mordida do raptor"

Chovia a cântaros naquela região tropical, a água martelava o teto de zinco da clínica, descia gorgolejando pelas calhas galvanizadas, explodia no chão em uma torrente. Roberta Carter suspirou, olhando pela janela. Ali da clínica mal dava para ver a praia, ou o oceano ao longe, encoberto pela neblina baixa. Não era bem isso que esperava quando chegara a Bahia Anasco, uma vila de pescadores na parte oeste do litoral da Costa Rica, para passar dois meses como médica visitante. Bobbie Carter procurava sol e sossego, depois de dois anos estafantes de residência no pronto-socorro do hospital Michael Reese de Chicago.

Ela já se encontrava há três semanas em Bahia Anasco. E chovia diariamente.

No mais ia tudo bem. Gostava do isolamento da região e da cordialidade das pessoas. A Costa Rica possuía um dos vinte melhores serviços médicos do mundo, e até naquela vila remota da costa havia uma clínica bem aparelhada. Manuel Aragón, o enfermeiro, era inteligente e bem treinado. Bobbie conseguia praticar o mesmo nível de medicina a que se habituara em Chicago.

Mas como chovia! Uma chuva constante, interminável!

Do outro lado da sala de atendimento, Manuel virou a cabeça.

— Escute — falou.

— Creia em mim, eu escuto — Bobbie retrucou.

— Falo sério. Ouça.

Só então ela percebeu outro som, misturado à chuva, um ronco surdo que engrossou até encorpar o suficiente para ser ouvido claramente: o latejar ritmado de um helicóptero. Pensou que era loucura voar com um tempo daqueles.

Mas o som cresceu mais, e o helicóptero rompeu a névoa do oceano e roncou acima deles, circulou e voltou. Ela viu quando o aparelho balançou por cima da água, perto dos barcos de pesca, depois passou de lado pelo instável cais de madeira e retornou à praia.

Procurava um lugar para pousar.

Era um Sikorsky barrigudo, com uma listra azul na lateral, com as palavras "InGen Construções", nome da companhia responsável por um novo empreendimento turístico numa das ilhas. Tratava-se de um local de veraneio espetacular, além de muito complicado; diversos moradores locais tinham sido contratados para a obra, que já se arrastava havia mais de dois anos. Bobbie podia imaginar direitinho como seria — um imenso complexo hoteleiro do tipo americano, com piscinas e quadras de tênis, onde os hóspedes podiam jogar e tomar seus daiquiris sem ter nenhum contato com a vida real do país.

Bobbie ficou a imaginar o que haveria de tão urgente na ilha para obrigar o helicóptero a voar no meio da tempestade. Viu, pela janela, quando o piloto suspirou aliviado, ao conseguir pousar na areia molhada da praia. Homens uniformizados saltaram, escancarando a porta lateral. Ela ouviu gritos frenéticos, e Manuel a cutucou delicadamente.

Eles precisavam de um médico.



Dois empregados negros carregaram um homem prostrado até ela, enquanto um branco gritava ordens. O sujeito branco usava um impermeável amarelo. O cabelo ruivo despontava nas beiras do boné de beisebol dos Mets.

— Tem um médico aqui? — perguntou, quando ela se aproximou.

— Sou a doutora Carter — respondeu Bobbie. A chuva forte martelava sua cabeça e seus ombros. O ruivo franziu a testa para ela, que usava jeans e uma blusa curta. Carregava o estetoscópio no ombro, já meio enferrujado por causa da maresia.

— Sou Ed Regis. Trouxemos um homem muito doente, doutora.

— Então é melhor levá-lo para San José — ela disse. San José era a capital, e ficava a vinte minutos de distância, pelo ar.

— Seria bom, mas não conseguiríamos passar as montanhas com este tempo. Vai precisar cuidar dele aqui mesmo.

Bobbie caminhou ao lado do homem ferido enquanto o carregavam para dentro da clínica. Era moço, quase menino, dezoito anos no máximo. Erguendo a camisa empapada de sangue, ela viu um rasgo ao longo do ombro, e outro na perna.

— O que aconteceu?

— Acidente de trabalho — Ed gritou. — Caiu. Uma retroescavadeira passou por cima dele.

O rapaz estava pálido, trêmulo, inconsciente.

Manuel ficou parado na porta verde brilhante da clínica, indicando o caminho. Os homens transportaram o ferido para dentro, e o acomodaram na mesa existente no centro da sala. Manuel providenciou soro por via intravenosa, e Bobbie acendeu a luz sobre o rapaz, debruçando-se para examinar os ferimentos. Imediatamente percebeu que o estado do moço era crítico. Morreria, com toda certeza.

Uma laceração larga começava no ombro e terminava no torso. No final do ferimento, a carne se reduzira a tiras. No centro, o ombro fora deslocado, expondo os ossos claros. Um segundo golpe retalhara os músculos pesados da coxa, em profundidade, deixando visível a pulsação da artéria femoral sob eles. A primeira impressão de Bobbie foi de que a perna havia sido rasgada.

— Fale mais sobre o acidente — pediu ao ruivo.

— Eu não vi nada. Disseram que a retroescavadeira o pegou.

— Parece até que foi atacado por uma fera — ela comentou, examinando a ferida. Como a maioria dos médicos de pronto-socorro, lembrava-se detalhadamente de pacientes que atendera há anos. Havia tratado de dois casos de ataque por animais. No primeiro, uma criança de dois anos fora mordida por um cão Rottweiler. No outro, um funcionário do circo embriagado tivera um encontro com o tigre de Bengala. Os dois ferimentos eram similares. As marcas deixadas por animais possuíam um aspecto inconfundível.

— Atacado? Que nada! Impossível, acredite em mim — Ed contestou, molhando os lábios com a língua ao falar. Agia evasivamente, como se houvesse feito algo de errado. Bobbie ficou intrigada. Caso utilizassem mão-de-obra local, sem qualificação, na construção do balneário, os acidentes certamente seriam comuns.

— Quer uma limpeza? — Manuel indagou.

— Sim. Depois da anestesia.

Abaixando-se mais, ela tateou o ferimento com a ponta do dedo. Se uma retroescavadeira o atingira, haveria terra entranhada na carne. Mas não encontrou nenhuma sujeira, apenas uma espécie de espuma, pegajosa. E o ferimento emitia um odor estranho, como um cheiro de morte e podridão. Ela nunca havia sentido um cheiro assim antes.

— Há quanto tempo ocorreu o acidente?

— Cerca de uma hora.

Mais uma vez Ed Regis mostrou seu nervosismo. Era um tipo ansioso, agitado. E não tinha cara de empreiteiro da construção civil. Parecia um executivo. Obviamente, estava fora de seu ambiente.

Bobbie Carter concentrou-se nos ferimentos. Não conseguia identificar um trauma mecânico. As indicações não conferiam. Nenhuma contaminação por terra no local atingido, nenhuma contusão. Traumas mecânicos de qualquer origem — acidente de automóvel ou numa fábrica — quase sempre apresentavam contusões. Mas não havia nenhuma. Em vez disso, a pele do paciente fora rasgada — lacerada — no ombro e na coxa.

Na verdade parecia mais uma mordida. Por outro lado, o corpo não apresentava arranhões generalizados, típicos de um ataque de animal. Ela examinou novamente a cabeça, os braços, as mãos...

As mãos.

Sentiu um arrepio ao olhar para as mãos do rapaz. Havia cortes pequenos, rasgos nas palmas, e pontos arroxeados nos punhos e ante-braços. Ela trabalhara em Chicago tempo suficiente para saber o que significavam.

— Muito bem — disse a Ed —, espere lá fora.

— Por quê? — ele perguntou alarmado. Não gostara da ordem.

— Quer que eu o ajude ou não? — impacientou-se Bobbie, empurrando-o e fechando a porta na cara dele. Não sabia o que se passava, e não se sentia à vontade.

Manuel hesitou.

— Continuo a limpeza?

— Sim — ela concordou, erguendo a Olympus de foco automático. Tirou várias fotos dos ferimentos, posicionando a luz para conseguir detalhes. Parecia mesmo uma mordida, pensou. O rapaz gemeu, e ela guardou a câmera, debruçando-se sobre o paciente. Os lábios dele moveram-se, a língua enrolada.

— Raptor — ele murmurou. — Lo sa raptor...

Ao ouvir tais palavras, Manuel gelou, recuando horrorizado.

— O que quer dizer? — Bobbie perguntou. Manuel abanou a cabeça.

— Não sei, doutora. Lo sa raptor não é espanhol.

— Não? — Para ela parecia espanhol. — Por favor, prossiga com a limpeza.

— Não posso, doutora. Cheiro ruim. — Ele franziu o nariz e fez o sinal da cruz.

Bobbie deteve-se nos restos de espuma pegajosa existentes no ferimento. Tocou-a, esfregando o material entre os dedos. Assemelhava-se um pouco com a saliva.

Os lábios do rapaz ferido mexeram-se de novo.

— Raptor — sussurrou.

— Ele o mordeu — disse Manuel aterrorizado.

— Quem o mordeu?

— O raptor.

— O que é raptor?

— Significa hupia.

Bobbie franziu a testa. Os costarriquenhos não eram excessivamente supersticiosos, mas já ouvira menções aos hupias na vila. Segundo a lenda, eram aparições noturnas, vampiros sem rosto que raptavam crianças pequenas. Viviam antes nas montanhas da Costa Rica, e agora habitavam as ilhas da costa.

Manuel recuara, fazendo de novo o sinal da cruz e murmurando:

— Este cheiro não é normal. Foi um hupia.

Bobbie estava a ponto de ordenar que o enfermeiro voltasse ao trabalho quando o rapaz machucado sentou-se na mesa, com os olhos arregalados. Manuel gritou apavorado. O paciente gemeu e virou a cabeça, lançando um olhar esgazeado para um lado e para outro, e em seguida vomitou uma golfada de sangue. Entrou imediatamente em convulsões, o corpo todo vibrando. Bobbie o agarrou, mas ele pulou da cama para o chão cimentado. Vomitou outra vez. Havia sangue por toda parte. Ed abriu a porta, gritando:

— Ei, o que está acontecendo aqui? — Mas quando viu tanto sangue recuou, com as mãos na boca.

Bobbie pegou um bastão para colocar entre os dentes do rapaz, mas percebeu que seria inútil. Com um espasmo final ele relaxou e ficou quieto, estendido no chão.

Ela se abaixou para fazer a respiração boca a boca, mas Manuel segurou seu ombro, puxando-a.

— Não. O hupia vai pegá-la.

— Manuel, por favor...

— Não. — Ele a encarou alucinado. — Não pode entender estas coisas.

Bobbie olhou para o corpo no chão e concluiu que não faria diferença; era impossível ressuscitá-lo. Manuel chamou os outros homens, que entraram na sala e levaram o corpo embora. Ed surgiu, limpando a boca com as costas da mão, resmungando:

— A senhora fez o possível, doutora.

Ela observou os homens que levavam o corpo de volta ao helicóptero e partiam trovejando rumo ao céu.

— Melhor assim — Manuel comentou.

Bobbie pensava nas mãos do rapaz. Estavam cobertas de cortes e machucados, um padrão característico de tentativa de defesa. Tinha certeza absoluta de que ele não sofrerá um acidente de trabalho. Havia sido atacado, e erguera as mãos para se proteger.

— Onde fica essa ilha de onde vieram?

— No oceano. Mais ou menos a cento e cinqüenta ou duzentos quilômetros da costa.

— Meio longe para um balneário. Manuel observou o helicóptero.

— Espero que não voltem nunca mais aqui.

Bem, pensou Bobbie, pelo menos tinha tirado as fotos. Mas ao virar para a mesa, viu que a câmera desaparecera.

À noite a chuva finalmente parou. Sozinha no quarto atrás da clínica, Bobbie folheava o dicionário espanhol de bolso já muito manuseado. O rapaz falara em "raptor", e apesar do que Manuel afirmara, ela suspeitava que se tratava de uma palavra espanhola. E não deu outra, estava lá no dicionário. Significava "seqüestrador" ou "raptador".

Isso a fez pensar. O sentido da palavra era perturbadoramente próximo ao significado de hupia. Claro, ela não acreditava em superstições. E os cortes na mão não poderiam ter sido feitos por uma aparição. O que o rapaz tentara dizer a ela?

Ouviu gemidos no quarto ao lado. Uma das mulheres da vila entrara em trabalho de parto, e Elena Morales, parteira local, a auxiliava. Bobbie voltou à clínica e chamou Elena para fora por um instante.

— Elena...

— Sim, doutora?

— Sabe o que é um raptor?

Elena era uma sessentona grisalha, uma mulher forte, com os pés no chão, pouco dada a fantasias. Sob o ar da noite ela franziu o cenho e repetiu:

— Raptor?

— Sim. Já ouviu essa palavra?

— Já. Quer dizer... alguém que entra à noite e leva uma criança.

— Um seqüestrador?

— Sim.

— Um hupia?

A atitude da mulher mudou de imediato.

— Não diga essa palavra, doutora.

— Por que não?

— Não fale em hupias agora — Elena pediu com firmeza, indicando com um movimento da cabeça a mulher que se preparava para o parto. — Não convém dizer essa palavra.

— Mas um raptor morde e lacera as vítimas?

— Morde e lacera? — Elena pareceu surpresa. — Claro que não, doutora. Nada disso. Um raptor é um homem que leva um bebê embora. — Ela parecia irritada com a conversa, ansiosa para encerrá-la. Recuou em direção à clínica. — Eu aviso quando ela estiver pronta, doutora. Creio que ainda demora uma hora, talvez duas.

Bobbie olhou para as estrelas, e ficou ouvindo o movimento suave das ondas na praia. Na escuridão, identificou as sombras dos barcos pesqueiros ancorados. A paisagem era tão normal, tão calma, que se sentiu como uma tola, por falar em vampiros seqüestradores de bebês.

Retornou ao quarto, lembrando-se novamente de que Manuel insistira em afirmar que a palavra não era espanhola. Por curiosidade, procurou o termo no dicionário da língua inglesa, e para sua surpresa encontrou um verbete também ali:



raptor (do latim raptor, seqüestrador, der. de raptus, seqüestro, rapto): ave de rapina.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Introdução: "O incidente InGen"

O final do século 20 testemunhou uma corrida do ouro científica de proporções assombrosas: a fúria delirante e desesperada para comercializar produtos da engenharia genética. Essa empreitada realizou-se com tanta rapidez — e tão poucas críticas isentas — que suas dimensões e implicações são praticamente desconhecidas.

A biotecnologia acena com a maior revolução na história da humanidade. Ao final desta década, terá superado os computadores e a energia atômica em termos de efeitos na vida cotidiana. Nas palavras de um estudioso, "a biotecnologia transformará cada aspecto da vida humana: medicina, alimentação, saúde, entretenimento, até mesmo nosso próprio corpo. Vai mudar literalmente a cara do planeta."

Mas a revolução da biotecnologia difere, em três aspectos importantes, das transformações científicas do passado.

Em primeiro lugar, os Estados Unidos ingressaram na era atômica através do trabalho de um único instituto de pesquisa, em Los Alamos. A entrada na era dos computadores resultou dos esforços de uma dúzia de empresas. Mas a pesquisa biotecnológica atual vem sendo conduzida em mais de dois mil laboratórios, somente naquele país. Quinhentas multinacionais gastam cinco bilhões de dólares por ano nessa área.

Em segundo lugar, grande parte da pesquisa é frívola ou inconseqüente. As tentativas de criar trutas mais claras para permitir melhor visualização na água, árvores quadradas para facilitar o corte de tábuas e células odoríferas injetáveis para que a pessoa recenda para sempre seu perfume favorito podem parecer piadas, mas não são. Na verdade, o fato de a biotecnologia poder ser aplicada a indústrias tradicionalmente sujeitas aos caprichos da moda, como a de cosméticos e as de diversões, aumenta a preocupação quanto ao uso estapafúrdio dessa nova e poderosa tecnologia.

Em terceiro, o trabalho se desenvolve sem controle. Ninguém o supervisiona. As leis federais não o regulam. Não existe preocupação governamental com a questão, nem nos Estados Unidos nem em outras partes do mundo. E, como a aplicação da biotecnologia abrange dos remédios aos produtos agropecuários, passando pela neve artificial, torna-se difícil implantar uma política coerente.

O fato mais alarmante, contudo, é a falta de controle por parte dos próprios cientistas. Vale notar que quase todos dedicados à pesquisa genética estão envolvidos com o comércio da biotecnologia. Não há observadores neutros. Todo mundo tem algum interesse.

A comercialização da biologia molecular é o caso ético mais assombroso da história da ciência, e ocorreu com assustadora velocidade. Por quatrocentos anos, desde Galileu, a ciência comportou-se como uma investigação livre e aberta sobre o funcionamento da natureza. Os cientistas sempre ignoraram fronteiras nacionais, mantendo-se acima dos conceitos transitórios da política e até mesmo da guerra. Sempre se rebelaram contra pesquisas secretas, chegando a recusar a idéia de patentear suas descobertas. Consideravam-se trabalhadores a serviço de toda a humanidade. E, por várias gerações, as descobertas dos cientistas realmente possuíam uma característica peculiar, o desprendimento.

Quando, em 1953, dois jovens pesquisadores da Inglaterra, James Watson e Francis Crick, decifraram a estrutura do DNA, seu trabalho foi saudado como um triunfo do espírito humano, dentro da busca centenária pela compreensão científica do universo. Acreditava-se piamente que a descoberta seria ampliada e utilizada em benefício da humanidade como um todo.

Mas não foi bem isso o que aconteceu. Trinta anos depois, quase todos os colegas cientistas de Watson e Crick encontravam-se comprometidos com um tipo completamente diferente de empreitada. A pesquisa genética molecular tornou-se um projeto comercial gigantesco, multibilionário, datado não de 1953, mas sim de abril de 1976.

Essa foi a época de um encontro que se tornaria famoso, no qual Robert Swanson, um capitalista ousado, abordou Herbert Boyer, bioquímico da Universidade da Califórnia. Os dois homens resolveram fundar uma empresa comercial, para explorar as técnicas de manipulação de genes de Boyer. A nova companhia, Genentech, tornou-se rapidamente a maior e mais bem sucedida das empresas pioneiras de engenharia genética.

Parecia que todo mundo queria ficar rico de repente. Novas empresas surgiam a cada semana, e os cientistas brigavam para participar da pesquisa em genética. Até 1986, pelo menos trezentos e sessenta e dois cientistas, inclusive sessenta e quatro membros da Academia Nacional, assumiram cargos nos conselhos consultivos de indústrias de biotecnologia. O número de cientistas prestando consultoria ou participando de conselhos de acionistas era bem maior.

Torna-se necessário enfatizar o quanto esta mudança de atitude é significativa. No passado, cientistas puros olhavam para os negócios com ar esnobe. Consideravam a busca do lucro pouco interessante intelectualmente, própria para comerciantes. E pesquisar para uma indústria, mesmo em locais de prestígio como os laboratórios da Bell ou IBM, servia apenas para quem não conseguia uma função na universidade. A atitude dos cientistas, portanto, era fundamentalmente crítica em relação à ciência aplicada e à indústria em geral. Esse antagonismo secular manteve os pesquisadores universitários livres da contaminação provocada por laços com a indústria, e sempre que surgia algum debate sobre questões tecnológicas, cientistas desvinculados das indústrias estavam disponíveis para discuti-las em alto nível.

Isso não é mais verdade. Há poucos biólogos moleculares e pouquíssimas instituições de pesquisa sem ligações comerciais. Os bons tempos se foram. A pesquisa genética prossegue, em um ritmo mais alucinado do que nunca. Mas é feita em segredo, às pressas, em função do lucro.

Dentro desse ambiente comercial, talvez seja inevitável o surgimento de uma empresa ambiciosa como a InGen, International Genetic Technologies, Inc., de Paio Alto. Pouco surpreende também que a crise genética por ela criada não tenha sido divulgada. Afinal de contas, a pesquisa da InGen realizou-se em segredo; o incidente propriamente dito ocorreu em uma das áreas mais remotas da América Central; e menos de vinte pessoas o testemunharam. Deste total, apenas um pequeno grupo sobreviveu.

Mesmo no final, quando a International Genetic Technologies baseou seu pedido no Capítulo 11 da lei de falência, dando entrada no Tribunal Federal de Falências em San Francisco, no dia 5 de outubro de 1989, os editais quase não chamaram a atenção da imprensa. Pareciam tão corriqueiros: a InGen era a terceira pequena empresa norte-americana de bioengenharia a fechar naquele ano, e a sétima desde 1986. Poucos documentos do processo vieram a público, uma vez que os credores pertenciam a um consórcio japonês, formado por companhias como a Hamaguri e Densaka, que tradicionalmente evitavam a publicidade. Para impedir revelações desnecessárias, Daniel Ross, da Cowan, Swain e Ross, advogado da InGen, também representou os investidores japoneses. E a petição um tanto inusitada do vice-cônsul da Costa Rica foi transmitida a portas fechadas. Sendo assim, não espanta que, no prazo de um mês, os problemas da InGen tenham sido discreta e cordialmente resolvidos.

Os envolvidos no acordo, inclusive os eminentes conselheiros da junta de consultores científicos, assinaram um termo comprometendo-se a manter total sigilo sobre os fatos, e nenhum deles se dispõe a falar sobre o que aconteceu. Contudo, muitos dos principais protagonistas do "incidente InGen" não assinaram o termo, e aceitaram discutir os notáveis episódios que desembocaram nos dois dias cruciais em agosto de 1989, em uma ilha remota no litoral oeste da Costa Rica.

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